Reflexões

Onde Apostar as Fichas do Supply Chain em Tempos de Crise?

Sempre que a economia passa por um momento de desaceleração (e isso sempre acontece), surge uma corrida desenfreada por redução de custos. É certo que qualquer empresa (e o governo por que não?) deve sempre buscar reduções de custo e não só em tempos de crise econômica. Mas será que essa é a única aposta básica quando falamos do Supply Chain das empresas?

Realizamos uma pesquisa junto a executivos de grandes empresas em diferentes segmentos de negócio no começo de 2016 com o tema “Supply Chain em Tempos de Crise” que mostra alguns resultados desafiadores à visão simplista da redução de custos como único foco das apostas.

A primeira constatação é que devemos fazer nossa análise por segmento. A pesquisa mostrou que o foco das novas iniciativas no varejo tem a ver com melhoria no nível de serviço. Ou seja, questões relacionadas como disponibilidade do produto (“On Shelf Availability”), pontualidade de entregas nos pontos de venda, pedidos completos, acuracidade de estoques (canal físico e virtual), entre outros temas são os pontos de aposta para melhoria dos resultados da empresa. Em tempos de escassez, a perda de vendas pode ser muito mais danosa que a administração dos custos.
Já a indústria, devido as sucessivas iniciativas de redução de custo nos últimos anos, aposta em iniciativas que apoiem o aumento de receita. Ou seja, questões relacionadas a tempos de ciclo (“Time to Market”) e estruturação da cadeia para atendimento às necessidades específicas dos clientes em termos de novos produtos ou produtos customizados, são as principais apostas. Já o segmento de serviços, que foi o último dos segmentos a sentir a chegada da crise, aposta agora no “vermelho e preto” ao mesmo tempo – ou seja, em redução de custo e aumento de nível de serviço. Por fim, nenhum dos três segmentos priorizou a utilização de capital como era esperado. Assim como o cidadão comum deixou de comprar bens duráveis, as empresas estão evitando gastar dinheiro com novos CDs, caminhões, empilhadeiras entre outras compras de ativos. A mensagem aqui é focar na otimização dos ativos existentes, melhorando a rentabilidade dos investimentos já realizados.

A pesquisa procurou medir também o nível de maturidade do Supply Chain das empresas. Mais de 60% responderam que suas cadeias de abastecimento têm aprimoramento previsto ou requerem aprimoramento. Os principais focos, nessa ordem, foram: integração de novos negócios, otimização de estoques na cadeia, gestão de fornecedores e centralização das operações. Nossa leitura é que depois do período de expansão quando as empresas cresceram e adquiriram novos negócios, o tempo agora é de digestão. E essa digestão precisa ser rápida dado que o jogou ficou desfavorável.

A consequência lógica desse contexto é que as empresas deveriam acelerar seus projetos pois o tempo joga contra. Mas a pesquisa mostrou também que 63% das empresas apontaram como principais dificuldades para a execução de projetos, falta de equipe dedicada para as iniciativas, falta de suporte de outras áreas da organização, falta de sistemas (TI) para suportar a ação, e dependência da maturidade de outras áreas.

Qual a saída então? Contratar ajuda ou mão-de-obra externa. Como fazer isso num ambiente de contenção de gastos? Geramos assim o “Dilema de Tostines”…não gasto porque não levo adiante os projetos ou não levo adiante os projetos porque não gasto. A saída para esse impasse é tomar um risco calculado levando em conta benefícios a serem gerados em cada projeto, investimentos a serem feitos e segurança na entrega. Sabemos que hoje poucas empresas externas conseguem atender a esse trinômio com êxito e assim ajudar efetivamente as empresas.

Um último tópico importante perguntado foi quais os fatores críticos de sucesso num projeto de Supply Chain dentro da empresa do respondente. Nesse item, 52% dos das empresas apontaram que planejamento da implantação, escopo bem claro e definido do projeto, apoio das partes interessadas e gestão da mudança são os itens mais críticos para terem um projeto de sucesso. Outras questões que também apareceram foram: escopo claro e bem definido, apoio das partes interessadas, Business Case bem estruturado e follow-up da implantação. Todos esses pontos estão diretamente associados a uma efetiva gestão de projetos.

Como conclusão podemos comparar a gestão em tempos de crise com o tratamento de uma gripe. Sabemos os remédios que temos que tomar e o que fazer no plano básico. Tem que ser feito e ponto. Mas, se quisermos ir além, principalmente em assuntos relacionados ao Supply Chain, temos que ser mais criativos e assertivos atacando corretamente as necessidades de cada segmento de negócio, levando em consideração seu grau de maturidade na cadeia.

Tomar somente remédios básicos pode não ser suficiente para uma crise mais parecida com uma gripe H1N1 do que para uma gripe normal. Talvez seja o momento de abraçar soluções menos ortodoxas que garantam na crise e pós-crise uma vantagem competitiva mais duradoura. Como diria o famoso ditado americano: “It´s on tough moments that we separate the men from the boys” (São momentos difíceis que separam os homens dos garotos).